sexta-feira, 18 de novembro de 2011


00/00/00


Onze fotogramas de jornais diários de distribuição gratuita que Daniel Pinheiro recolheu ao longo de um ano, e dos quais meticulosamente retirou todas as imagens e eliminou a possibilidade de ler qualquer notícia, fazem-nos regressar à origem da imagem que encontra os seus argumentos na ontologia do contacto e na tactilidade a que ela convida. E se o contacto é aqui entendido como condição teórica e operativa do signo que mantém com a coisa uma relação física de causalidade, dela se constituindo um índice, a tactilidade pressupõe o exercício do sentido do tacto que, quando toca, estabelece um contacto.
A matéria e o processo são os da fotografia. Matrix ou a redução da fotografia à absoluta simplicidade das aparições, como matéria que sedimenta e processo de impressão que simultaneamente molda e revela a configuração do vestígio em que elas se constituem. Vestígio de um vestígio porque os jornais, colocados sobre a superfície fotossensível e diretamente iluminados, são o que restou da ausência das imagens, documentos ainda no seu sentido original de prova e indício, mas para melhor o negar, no registo ininteligível dos dias ou do que neles constituiu notícia. É nesse sentido que o jornal e a fotografia partilham o valor indicial de um nada e de qualquer coisa indecidível, ambos sujeitos a um mesmo princípio de negação que conduz o objecto ao absoluto da sua presença circunscrita à presença do objecto fotográfico. É também nesse sentido que o que adere a esse objecto é o que nunca esteve lá, o que havia desaparecido na primeira ausência da imagem e que, na segunda, corresponde à comparência do papel sensibilizado por subtração, que é a ação da imagem que se retirou.
Desse princípio de negação – o da subtração que conduz à prova do nada a que a imagem se reduz –, onde o preto e o branco são o simétrico visível do mesmo desaparecimento, surge a evidência espectral da fotografia em geral e destes fotogramas em particular. Num movimento idêntico, o título tanto anuncia o registo ou a inscrição (matrícula ou matrix) que nada identifica porque nada permite reconhecer, como pode anunciar a potência contida na forma provável de um número de série e no início que a decide ou, finalmente, a numeração sequencial que infinitamente faz do tempo uma sucessão de dias e de cada dia a representação de um tempo que se manuseia como um jornal ou uma fotografia.

Maria João Gamito


00/00/00, 2010/11
Fotogramas, gelatina e prata s/papeis baritados, 40,6x50,8 cm
Photograms, gelatine silver prints on baryt papers, 16x20 inch

26/2/10
15/3/10
16/4/10
3/5/10
2/6/10
22/7/10
2/9/10
25/10/10
18/11/10
13/12/10
12/1/11

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